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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Alguém para escolher nomes

Estou sentada nesta cadeira há quase 40 minutos sozinha, mas o bar está cheio. Vez ou outra um garçom passa perguntando se desejo mais uma bebida e suspeito que ele deseja me perguntar quando vai chegar minha companhia.

Ah se eu soubesse! Independente de onde estou esperando, o fato é que estou esperando há um bom tempo.

E fora todas essas coisas de carreira bem sucedida, salário gordo, carro legal – que sim, são importantes e necessárias!, eu quero mesmo ter alguém para somar um coração.

Planejar um carnaval com menos tumulto e beijos perdidos, ligar pra saber qual foi o resultado do exame, pedir paciência com minha TPM e deixar eu chorar feito menina quando der essa vontade! Quero alguém que deseje comprar um sofá verde escuro com almofadas de chita. Quero alguém que aceite as coisas rústicas que tanto aprecio, que ame revelar fotografias para espalhar em porta-retratos pela casa. Que ouça uma música e diga que sempre, sempre mesmo, vai lembrar de mim quando ouvi-la! Quero momentos, mas quero lembranças... Lembranças que você pode compartilhar a vida toda com o outro, lembranças divididas meio a meio. Não quero lembranças pesadas de saudade e ausências...

Alguém que fique irritado com meus esquecimentos, mas que me perdoe com um longo suspiro! Alguém para planejar uma viagem longa e inesquecível... Uma pessoa que me ajude a escolher nomes: dos filhos, do cachorro, do fusquinha vermelho guardado na garagem.

_Mais uma bebida?_interrompeu o garçom.

_Ah, não...Obrigada! Só uma companhia (falei baixinho).

**Para uma amiga que não tem medo de falar o que sente!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A incrível arte do silêncio

Não falar da vida alheia é quase um sacrifício! E desculpem-me as mulheres, mas nós então, sofremos mais com isso... Já li algo científico a respeito, temos uma parte do cérebro mais ativa que nos faz converter com maior facilidade emoções em palavras; algo que os homens não têm naturalmente. Sorte a deles!
Pois bem... Como é fácil ter a solução para os problemas dos outros, para os defeitos dos outros, enquanto os nossos se acumulam nas gavetas?!
Tão fácil é administrar o salário do colega, com ele você faria milagres, mas com o seu, no máximo, pagaria as próprias dívidas...
No quesito romance, perante o relacionamento DOS OUTROS, somos frios e racionais... Não seríamos sentimentais, comovidos, jamais perdoaríamos! Seria fácil dizer adeus aquele ser amado, porém ingrato.
E se fôssemos chefes?? Jesus! Seria a glória...Seríamos bons, emendaríamos os feriados, aumentaríamos os salários... Constantemente de bom humor e cheios de excelentes bons-dias!
É fácil viver na pele do outro... São teorias!
E nessa arte de julgar o outro, difícil é conter as palavras... Falamos, desabafamos, o que é humano, claro! Mas, condenamos! Não suportamos o bichinho da curiosidade nos roendo por dentro e destilamos nosso veneno...
Como foi? Como terminou? Como comprou? Por que falou? Por que agiu? Por que disse? Por que não disse?
Admiro os observadores. Os silenciosos. Os cautelosos... Os que usam a incrível arte do silêncio para se conter perante o outro, o alheio...

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Amor e mangas maduras

Adulta, pensando em como era difícil amar alguém, lembrou se da infância.
Quando criança, ia para a casa da avó no sítio. Era o momento de colocar os pés na terra, de rolar no capim seco, de ver o avô tirar o leite das vacas...
Em algum mês do ano que não se lembrava, era época de mangas e as várias mangueiras da roça ficavam carregadas. Tinham de todo tipo, tamanhos e formas... A molecada embaixo de cada uma delas passava a tarde inteira lá, entre galhos e moscas.
Ela subia no galho mais baixo, pois era medrosa, e puxava uma manga-coquinho... Sua preferida! A fruta era pequena, tinha a casca verde com uns riscos pretos e para comê-la era necessário puxar a casca em filetes... Dentro muitos fios e um sabor doce! Lambuzava-se com várias! Comia muitas e ficava com a boca amarelada... Entre os dentes os fiapos da fruta! Afinal, para ela, comer manga era bom no pé e se lambuzando... Essa coisa de usar faca para fatiá-la não tinha graça nenhuma!
Fartava-se com as mangas, a meninada jogava caroços uns nos outros e ela ficava lá algum tempo, satisfeita, com a boca amarela e os dentes sujos, que não impediam que ela desse muitas, muitas risadas...Era momento de fartura, alegria, intensidade!
Como devia ser o amor na vida dela... Queria alguém para se fartar, lambuzar, sujar a boca e os dentes... Sair cansada de tanta satisfação! Afinal, manga assim como o amor, não se come em fatias, mas com voracidade e desejo...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Velhos sistemas

Dia desses organizando as gavetas do armário, deparou-se com duas camisinhas, que estavam ali esquecidas, assim como seu último relacionamento. Então deu-se conta, que não era justo e nem saudável que ficassem ali sem uso.
Logo pensou em dá-las ao primo. Mas, depois veio a dúvida: por que? Eu também posso precisar delas, pensou.
Porém agora, em tempos de solteirice, qualquer paquera seria nova e não era bom assim, digamos, ir logo pra cama... Velhos sistemas!
Naquele momento então, deparou – se com uma cena, que ela ainda não vivera, por mais que já tivesse uma vida liberal e moderna.
Ficou imaginando aquele rala e rola, beijos gostosos e lógico, o próximo passo.
_Você tem camisinha? – ela perguntaria.
_ Não gata... Mas, deixa rolar!
_Não, tudo bem! Eu tenho... Qual você prefere: a básica ou com sabor de uva?
Surgiria um silêncio, o cara seguiria em frente, porque homens sempre fingem modernidade, mas passados uns dias o telefone não tocaria.
Em algum canto da cidade, o moço pensaria:
“Um mulher que tem cardápio de camisinhas. Deve ficar com qualquer cara!”
Soltou um riso irônico, ali sozinha. E fechou a gaveta, com as duas camisinhas.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Memórias sobre putas nem um pouco tristes

Sempre tive curiosidade de saber como era uma zona, aonde os homens vão e as mulheres estão disponíveis a algum preço. Porém, sabendo dos problemas que isso poderia me trazer, era um desejo contido, quase que não realizável! Contudo, não imaginava que iria cumprí-lo em Buenos Aires...

O fato se deu quando voltava de um show de tango e o rapaz do city tour indicou a mim e meu companheiro que déssemos uma esticadinha próximo ao Cemitério da Recoleta. Já por volta das duas da manhã, em outro país, e não confiante nas calles por onde andávamos, resolvemos entrar logo no lugar mais movimentado. Lá fora, balões coloridos quase lembravam uma festa infantil... Sentimo-nos convidados e entramos. Eu vestida com um casaco de couro e um cachecol, tentava me aquecer da temperatura que lá fora girava em uns 10º ou 12º graus... Surpresa, adentrei de mãos dadas com meu namorado, num lugar onde a presença era 80% de mulheres com decotes cavadíssimos, barrigas de fora e shorts curtíssimos. Nos poucos passos que demos lá dentro, percebi que éramos olhados insistentemente... E que meu companheiro conseguia olhar em todas as direções para todas aquelas mulheres vestidas bem à vontade! Ainda confusa, e talvez ele também, puxou com força meu braço e disse assustado:

_Vamos sair daqui! Vamos!

Eu que não estava gostando de um lugar de tantas mulheres, mal entendi quando ele às gargalhadas me disse:

_Uma mulher apertou minha bunda e disse alguma coisa em espanhol! Você não viu?

Eu, que óbvio não tinha visto, entrei logo num bar próximo dali e quase vazio... Curiosa, perguntei ao garçom num portunhol ordinário:

_¿Qué es ese bar? – e apontei lá fora onde ficava o lugar.

_Es para los hombres y no para las chicas. De una casa de putas!

Meu companheiro não resistiu a piada e disse:

_Você não queria conhecer um puteiro. Conheceu! E um internacional ainda...

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Permita-se!

Que você tenha um seleto gosto musical, mas que curta um tecnobrega às vezes! Permita-se, (e amo mesmo essa frase do permita-se) às atitudes idiotas, quase inocentes...
Que você tenha mesmo aquele carro esporte, mas pense num fusquinha vermelho em noites sem estacionamento, garagem ou um segurança maior...
Eu cultivo o hábito de ser criança! Tenho um baú cheio de sorrisos largos, tolos e fáceis. Abro para os estranhos, para os amigos, para o espelho...
Eu aqui no alto de 1m57cm aproximo-me dos 30, daqui alguns poucos anos; ganhando algumas ruguinhas ingratas, mas um jeito pueril.
E quando é necessário ser séria, severa, quase que enrijeço, pois não sei ser metade, sou inteiro...
Passional, insegura, exagerada, embriagada ... Gosto de papos bobos, de estrelas na madrugada, de dançar muito com os melhores amigos gays que qualquer mulher pode ter!
Mentiria feio se dissesse que não choro! Choro muito, choro bobo, choro tolo... Choro porque tenho vivido muita coisa boa nessa vida... Choro porque aprendi a mergulhar! E de ir tão fundo, já bati a cabeça algumas vezes! Tudo bem! Voltei à superfície com algumas lições valiosas...
Ainda procuro algumas coisas perdidas ou não deixadas no caminho. Vai saber!!! Enquanto a lei for o “permita-se”, muitas coisas pode se descobrir...

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Dias de chuva

Eu gostaria mesmo dos dias de chuva guardados num vidro de balinhas. Estes mesmos que nos deixam pensativos, quem sabe nostálgicos. Quando a umidade invade nosso coração e nos faz querer conforto, cama e filme...
Dias de chuva para refrescar dores teimosas, amores distantes, vidas confusas...
Um dia de chuviscos e guarda-chuvas esquecidos para nos causar aborrecimentos bobos... De chuva intensa para nos ocultar de amores ingratos ou, quem sabe então, temporais para noites de amor e gozo...
Chuvas assim, guardadas num vidrinho de balas, ao lado da minha mesa de trabalho ou na escrivaninha do meu quarto. E quando tivesse tudo tão quente e incômodo, eu abriria o vidro e mergulharia ... Num mundo de águas e travessias, tão aconchegantes e omissas, que todos os calores mórbidos passariam...
Voltaria ao real com os cabelos molhados, o olhar limpo, a alma lavada!
Lavados e molhados de dias de águas do céu... quem sabe, todas sempre, no meu vidrinho de balas.